Conferência do teólogo Leonardo Boff encerra VI Congresso Pernambucano do Trabalho Seguro

 

Com a participação do renomado escritor, teólogo, filósofo e professor Leonardo Boff, o Grupo Interinstitucional de Prevenção de Acidentes de Trabalho da 6ª Região (Getrin6) realizou, na tarde dessa quarta-feira (27), o encerramento do VI Congresso Pernambucano do Trabalho Seguro. No decorrer de três dias, com a realização de conferências, palestras e painéis, foram discutidos assuntos relacionados aos direitos, saúde e bem-estar dos trabalhadores, integrando a temática desta edição: “Agenda 2030 da ONU para o desenvolvimento sustentável: do enfrentamento às boas práticas contra violências no trabalho”.

Palestras – A última tarde do congresso foi iniciada com a palestra “No pain, no gain. Reflexões sobre as contradições do trabalho que alimenta e adoece”, apresentada pela professora e doutora em Direito pela UFPE Fernanda Barreto Lira. Em seguida, foi realizado um painel. Nele, a advogada e deputada (mandata coletivo Juntas), Robeyoncé Lima, expôs o tema “Dificuldades de inserção das pessoas LGBTI no mercado de trabalho”. Também participaram do painel de encerramento a advogada, mestre em Direito de Trabalho (FDR-UFPE) Bianca Dias e a mestre em Psicologia pela UFPE professora Patrícia Amazonas.

Um dos idealizadores e maior expoente da teologia da libertação no país, doutor em Teologia pela Universidade de Berlim, e conhecido internacionalmente por sua defesa dos direitos dos pobres e excluídos, Leonardo Boff proferiu a conferência final do congresso, propondo o tema “Paz, justiça e eficácia: humanização no trabalho”. O convidado foi apresentado pelo diretor da Escola Judicial, desembargador Ivan Valença.

Conferência – Leonardo Boff iniciou elogiando a coragem de alguns palestrantes do congresso, que não se furtaram em denunciar o sofrimento pelo qual vem passando o povo brasileiro. “Não dá para entender o atual momento da crise, olhando somente de dentro. Fazemos parte de um contexto global maior”, provocou. Citando a atual agenda e preocupações do papa Francisco, defendeu que em breve toda a economia passará pelo tema da ecologia. Fazendo alusão ao G7 (grupo das sete maiores economias do mundo), defendeu que o Brasil tem tudo para ser o G Zero, pela sua vital importância para o futuro da humanidade, e para o que chamou de “sistema terra”.

Mencionou os graves perigos que nos rondam: aquecimento global, ameaça de novos conflitos nucleares, automação exacerbada sem a preocupação com o elemento humano,  precarização dos direitos e do sistema de proteção dos mais pobres. Defendendo a colaboração que o Brasil pode dar ao mundo, propôs que sejam imaginados outro tipo de sociedade e outra forma de produção, para superar a atual crise do capitalismo. “Vivemos uma nova fase da terra e da humanidade. O tempo das nações passou. Temos que construir a terra como ‘casa comum’, termo presente em recente encíclica do papa Francisco”, afirmou.

Um dos redatores da Carta da Terra – declaração de princípios éticos fundamentais para a construção de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica, publicado no ano 2000 como carta dos povos –, Boff explicou que o termo “meio ambiente” foi substituído por “comunidade de vida”. “Para que a terra continue produzindo vida, é preciso respeitar e cuidar da comunidade de vida”, defendeu. Como segundo tema de preocupação, falou da emergência de novas tecnologias e a extremada automação, que, na sua concepção, torna supérfluo o trabalho humano. Para o pensador, a política brasileira atual se traduz na destruição e na completa demolição de todos os avanços sociais das últimas décadas. “Devemos resistir, honrando as várias vidas que foram ceifadas para que pudéssemos ter alcançado estas conquistas”, conclamou.

Para explicar a nova crise do capitalismo, lembrou as teorias ultraliberais gestadas, no século XX, por economistas das escolas de Viena e de Chicago. Para o teólogo, a atual violação das leis e da própria Constituição seguem este ideário. “Proclamam o Estado mínimo e o direito de propriedade como único e absoluto. Os pobres são reduzidos a indivíduos que perderam a competição com o outro. Para estas teorias, a pobreza se reduz a um defeito técnico”, alertou. Para os seguidores do neoliberalismo ultrarradical, “não há política social, não há pobreza, não há povo”.

Por fim, confessou não esperar nada do “grande sistema”.  Relembrando o papa Francisco, defendeu uma nova economia, baseada em 3 tês: trabalho, terra e teto. Defendeu uma nova democracia: popular, solidária e ecológica. E uma economia, que deve ser voltada para a vida. Falou da criação de uma nova justiça social, “pois sem ela, nunca haverá a paz”. Defendeu, também, o que definiu como “uma sociedade biossustentada, que coloca o ser humano, e não o mercado de consumo, como o centro de suas preocupações”.

Por fim, falou de esperança e de um novo humanismo, calcado no sentido de solidariedade, do cuidado, da corresponsabilidade social e humana, e de uma nova dimensão ética. “Todos os seres devem ser respeitados pelos valores intrínsecos que possuem”, ensinou. Citando Santo Agostinho, lembrou o amor, a fé e a esperança. Destacando esta última virtude, por ser a esperança irmã da indignação e da coragem. “Não podemos perder a esperança. Esta crise vai passar’, finalizou, sendo aplaudido de pé pela plateia que lotava o auditório da Fafire.

Álbum de fotos

Matéria de teor meramente informativo, sendo permitida sua reprodução mediante citação da fonte.
Divisão de Comunicação Social

Tribunal Regional do Trabalho da Sexta Região (TRT-PE)
(81) 3225-3216
imprensa@trt6.jus.br

Texto: Gutemberg Soares
Fotos: Roberta Mariz