Selo 100% PJe

Isolamento Social e Questão de Gênero

Ilustração de várias pessoas usando máscara hospitalar

A chefe do Setor de Serviço Social do Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região (TRT-PE), Marina Moraes, produziu o texto abaixo sobre os impactos da pandemia na vida familiar, em especial no que tange às mulheres. O conteúdo faz parte das ações do Núcleo Saúde do Tribunal neste cenário de isolamento social e teletrabalho compulsório.

Isolamento Social e  Questão de Gênero

A necessidade de isolamento social como medida preventiva à disseminação da COVID-19 deu maior visibilidade a antigas questões de gênero relativas a papéis socialmente determinados, violência doméstica, seus impactos para a saúde física e mental das mulheres, bem como para o desempenho destas no mundo do trabalho.

É fato que a pandemia afetou todas as pessoas, ocasionando mudanças radicais na vida doméstica e social, relações de trabalho e formas de execução da atividade laboral, contudo, essas mudanças podem ter atingido de forma distinta homens e mulheres. 

Com o confinamento, as diferentes dimensões da vida do indivíduo passaram a ser vivenciadas no ambiente domiciliar. Para a classe média, o suporte de empregadas domésticas (também mulheres) e de equipamentos sociais como escolas e creches deixaram de existir, ensejando uma reestruturação na execução dos afazeres da casa e cuidados com a família.

Estereótipos de gênero advindos de uma sociedade patriarcal atribuem, de forma majoritária, à mulher o gerenciamento do universo doméstico, mesmo que esta desempenhe uma atividade profissional. Esse conceito perpassa as diferentes classes sociais, embora apresentando características específicas em cada uma delas. A participação dos demais membros da família, na maioria das vezes, restringe-se a execução de atividades complementares ou urgentes, sendo normalmente de ordem acessória, suplementar.

Esse acúmulo de atividades práticas, o chamado “trabalho invisível”, somado ao cuidado com familiares e à ocupação laboral remunerada sobrecarregam física e emocionalmente as mulheres. Dados do IBGE de 2019 demonstram que as pessoas do sexo feminino, em média, dedicam em torno de 52,4% a mais de horas semanais ao cuidado de pessoas e afazeres domésticos que os homens.

Há que se salientar, ainda, o aspecto subjetivo, proveniente da introjeção do conceito culturalmente difundido da mulher como ser multifuncional, capaz de realizar várias tarefas simultaneamente, aparentemente elogioso mas que em verdade funciona com justificativa “biológica” para o cotidiano de múltiplas tarefas feminino. A auto culpabilização por não dar conta de todas as atividades, a necessidade de manter toda a organização doméstica sob controle, a cobrança para manter os mesmos padrões de produtividade no trabalho, aumentam sobremaneira a carga mental e sofrimento psíquico desse segmento da sociedade, podendo levar ao adoecimento.

Outro fator de extrema relevância agravado pelo isolamento social é a violência contra as mulheres. A OPAS/OMS, em seu estudo de novembro/2017, demonstra que 30% das mulheres do mundo já sofreram algum tipo de violência física ou sexual praticada por parceiros. Ao acrescentarmos a violência psicológica, esse percentual tende a crescer significativamente.

A maior proximidade, convivência e stress propiciados pelo confinamento são fatores de risco para a ocorrência de violência doméstica, presente em todos os estratos sociais, cujo enfrentamento é tarefa social e coletiva.

Como superar o desafio de sobreviver ao período de distanciamento mantendo a integridade física e equilíbrio mental, no que concerne aos aspectos sociais aqui abordados?

Embora seja difícil solucionar problemas de raízes histórico/culturais tão profundas, é possível adotarmos algumas estratégias de reflexão individual e grupal que possam subsidiar a elaboração de novos valores. Construir condições de diálogo familiar para divisão de tarefas recorrentes (não apenas urgentes) e análise do espaço doméstico como responsabilidade coletiva; ser mais tolerante com imperfeições e coisas fora do lugar; desconstruir o conceito de mulher como ser inabalável e multitarefas; reservar um tempo para atividades prazerosas e relaxantes (meditação, leitura, contactar amigos) são exemplos de possibilidades.

O maior inimigo da vítima de agressão é o silêncio, a invisibilidade.Falar para alguma pessoa de confiança ou profissional da área; fortalecer a autoestima; buscar grupos de apoio e proteção existentes nas redes sociais; denunciar às Delegacias da Mulher constituem formas de iniciar o rompimento do ciclo da violência, que deve ser encarado como um processo,vez que envolve vários fatores de ordem emocional e social. 

A violência contra a mulher não é um problema do casal, é problema da sociedade.Tomar a iniciativa de abordar - caso perceba algum indício, mostrar-se disponível, ouvir sem julgamento, encaminhar para serviços especializados são atitudes que todos podemos ter.

O Setor de Serviço Social do TRT6 oferece orientações e acompanhamentos aos servidores do regional relativos aos aspectos aqui abordados e outros, dentro da sua área de competência. Envie um e-mail para servsocial@trt6.jus.br, mande seu contato que falaremos com você.

Fonte:

IBGE - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua - 2019

OPAS/OMS - Folha Informativa - Violência contra Mulheres - novembro/2017

Texto: Marina Moraes - Chefe do Setor de Serviço Social TRT6

Foto/Ilustração: André Félix